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Ao contrário do que se pensa, a esclerose surge entre os 20 e os 40 anos

10/09/2010

Comumente confundida com males como a demência, ela afeta o sistema nervoso central e tem sintomas como formigamentos e dormências nos braços e nas pernas
 Márcia Neri 

Não existem estudos que revelem com exatidão a incidência da esclerose múltipla (EM) no Brasil. Neurologistas estimam que a doença atinja entre 40 mil e 50 mil pessoas no país. O problema é praticamente desconhecido entre os brasileiros. Uma pesquisa realizada pelo Ibope revelou que, para 70% deles, a doença neurológica que costuma acometer homens e mulheres na fase mais produtiva da vida — entre 20 e 40 anos —, ainda é confundida com demência, mazela que compromete pessoas em idade avançada e é caracterizada pela perda progressiva de memória. O desconhecimento também permeia os profissionais de saúde. A maioria deles acaba menosprezando sintomas, fato que posterga o diagnóstico e impede maior controle da EM.

 
Rita de Cássia, 41 anos, é amparada pela filha Renata: nos últimos 10 anos, ela teve todos os sintomas, mas só foi diagnosticada no ano passado
Considerada pela medicina — ao contrário da percepção popular — uma doença de jovens, a esclerose múltipla afeta o sistema nervoso central. Em casos mais raros, o mal também atinge crianças. A causa ainda é desconhecida, mas sabe-se que infecções oportunistas, assim como a falta de exposição solar e o tabagismo, são importantes gatilhos . De acordo com o neurologista Éber de Castro, a EM nada tem em comum com a demência. No caso da esclerose múltipla, o sistema imunológico sofre uma espécie de pane e, em vez de combater corpos nocivos, passa a atacar o próprio organismo, em especial a mielina. “Fazendo uma comparação simples, a mielina é uma estrutura que envolve os neurônios. Ela encapa os nervos, é uma espécie de proteção semelhante àquela dos fios condutores de eletricidade”, detalha o médico.

Sem a bainha de mielina, os neurônios são expostos e a transmissão dos impulsos nervosos fica comprometida. A pessoa, então, passa a ter o que os neurologistas denominam de surtos, que se manifestam em forma de formigamentos, dormências nos braços e nas pernas, alterações visuais, desequilíbrio, perda da força, urgência urinária e comprometimento cognitivo. Com o tempo, se os surtos não forem controlados, acabam gerando incapacidade física.

Um quadro comum da esclerose é a pessoa amanhecer praticamente cega. Isso ocorre quando a mielina do nervo do olho sofre a destruição, impedindo que o indivíduo enxergue por algum tempo. “Passadas umas três semanas, o organismo reconstrói a mielina e a pessoa recupera a visão. A qualidade da proteção dos neurônios, porém, não é a mesma” lamenta o especialista. Os surtos duram mais de 24 horas, podem ser espaçados ou simultâneos, comprometendo outras funções, sempre dependendo do nervo afetado pela doença. O saldo são as sequelas.

O aposentado Renato Cevenini Salvador Ramos, 59 anos, define a EM como uma “doença sutil”. Ele lembra que sentiu os primeiros sintomas há pelo menos duas décadas. O diagnóstico, porém, foi feito apenas há um ano e meio. Ativo e ligado ao esporte, ele corria de sete a 10 quilômetros por dia. “Lembro de algumas vezes sentir uma limitação na perna direita, mas achava que havia exagerado no esforço. Cansei de ouvir de médicos que eu não tinha nada. Só me dei conta de que algo estava realmente errado quando as limitações aumentaram”, conta. Para enfrentar a doença, Renato buscou informações e tratou de se adaptar às dificuldades que foram surgindo.

Segundo ele, a internet tem sido uma aliada. “Busco enfrentar o mal de cabeça erguida. Quando tive um surto que afetou o equilíbrio, instalei barras de proteção no banheiro. Já andei de bengala quando os movimentos estavam comprometidos. Sei que novos surtos podem ocorrer, mas me proponho a reagir sempre”, diz.

Clima
A esclerose múltipla é mais frequente em países mais frios. Estudos revelam que, nos Estados Unidos, pelo menos 400 mil pessoas sofrem com o mal. “Há uma interação da doença com o meio ambiente, que ainda não sabemos explicar muito bem. Ao que parece, a chance de desenvolvê-la é maior em localidades nas quais os dias são mais curtos e a exposição solar é menor”, revela. O diagnóstico precoce é fundamental para evitar a progressão da doença, porque o tratamento evita os surtos. É justamente a maior frequência deles que promove o agravamento da EM. De acordo com o neurologista Rodrigo Barbosa Thomaz, do Centro de Atendimento e Tratamento da Esclerose Múltipla da Santa Casa de São Paulo, infelizmente os paciente peregrinam por muitos especialistas antes de terem o diagnóstico confirmado. “Alguns médicos prescrevem drogas contra labirintite. Outros indicam terapias contra o estresse para pacientes que sentem formigamento. Infelizmente, essa é a história da maioria dos doentes”, pondera.

As medicações minimizam os surtos, mas não os eliminam. Em cerca de 85% dos casos, a evolução é lenta quando o paciente é medicado, mas os 15% restantes evoluem para a cadeira de rodas em um ano. O tratamento é feito por meio de injeções periódicas e baseado em imunomoduladores, proteínas que regulam a entrada de leucócitos no sistema nervoso central, bloqueando as inflamações, e corticoides. “A estratégia de combate depende do caso. É extremamente importante que o tratamento medicamentoso seja feito paralelamente a terapias complementares. Uma equipe multidisciplinar, composta por fisioterapeuta, nutricionista, neuropsicólogos, enfermeiros, fonoaudiólogos e o que for necessário para garantir a qualidade de vida do paciente, é fundamental”, considera Thomaz.

A professora Rita de Cássia Sussuarana, 41 anos, teve praticamente todos os sintomas ao longo dos últimos 10 anos. Eram manifestações que iam e vinham. No ano passado, ela passou a cair com frequência, sem motivo aparente. O diagnóstico foi feito graças a um ortopedista que tratou um problema do joelho e investigou o motivo da demora na resposta ao tratamento proposto. “Não sei o que seria de mim sem minha filha e meus pais. Mesmo medicada, ainda tenho surtos. Às vezes, segurar um copo é uma tarefa difícil”, relata.

Rita também tem encontrado alento na acupuntura.“Tenho sorte, muitos pacientes não têm os mesmos recursos. Precisamos ter a certeza de que não estamos sozinhos”, explica. Especialistas estão otimistas em relação aos avanços das drogas. A expectativa é que, ainda no decorrer deste mês, seja aprovado nos Estados Unidos um medicamento oral contra a EM. “Aos poucos, as drogas são melhoradas e provocam menos efeitos colaterais. Hoje, os pacientes ainda sentem muito cansaço e calafrios depois das injeções. É como se estivessem gripados”, pondera.

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