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Holandeses fazem 'turismo' em busca de células-tronco

10/11/2010

“O sucesso não pode ser garantido, mas a segurança sim”, é o que se lê no website da Xcell-Center. A clínica de células-tronco holandesa – localizada em Colônia e Düsseldorf, na Alemanha – oferece tratamentos para, entre outros, esclerose múltipla, lesão medular, a doença fatal de Lou Gehrig (ALS) e infartos cerebrais.

A terapia de células-tronco foi proibida na Holanda já há alguns anos. Entretanto, enquanto os países vizinhos permitirem a prática, as autoridades holandesas permanecerão de mãos atadas.

Morre um bebê
Sobre a segurança, porém, se levantaram algumas questões, após o falecimento no verão passado de um bebê romeno ao ser tratado na clínica do farmacologista Kees Kleinbloesem. Um menino de dez anos do Azerbaijão teria também sobrevivido por milagre a um tal tratamento após graves complicações. A família do rapaz moveu uma ação contra a clínica. As autoridades alemãs deram início à investigação.

A terapia de células-tronco é um tratamento no qual são retiradas células-tronco, entre outros da medula ou dos cordões umbilicais de recém-nascidos, a fim de serem injetadas novamente em locais do corpo em que surgiu algum dano do tecido nervoso e ou muscular. Promissor, mas ainda num estágio incipiente.

Por conta dos muitos riscos ainda associados à terapia, esta foi proibida na Holanda a partir de primeiro de janeiro de 2007. Somente no Instituto de Câncer Holandês e em certos hospitais acadêmicos é que a terapia pode ser testada numa base experimental e sob condições restritas.

Contaminação
“Essas técnicas deveriam ser testadas largamente, o que não chega nunca a acontecer, como indicam os preparados. Às vezes nem mesmo contêm células-tronco ou estão contaminados. Ademais, não cumprem com os rígidos requisitos à aplicação da terapia de células-tronco em questão”, diz Rob Koenee, professor catedrático emérito de Clínica Geral e membro da direção da Associação Holandesa contra o Curandeirismo. A associação alerta já há muito para as práticas de Kleinbloesem.

Da mesma maneira, o médico holandês Robert Trossel administrou há alguns anos a pacientes britânicos material de células-tronco provindos, como se provou, do cérebro de bovinos. Trossel foi banido da Associação de Médicos pelo Conselho Médico Geral Britânico com a acusação de prática fraudulenta da terapia de células-tronco. Antes disso o seu consultório em Antuérpia já havia sido fechado também por ordem das autoridades belgas.

Grupo vulnerável
Mas fazer frente à terapia de células-tronco no seu estágio experimental é difícil, também por conta da grande demanda. Deste ponto de vista, pode-se dizer que essa luta contra a terapia equivale a enfrentar a vontade do cliente. Para as pessoas com alguma patologia crônica e incurável, tendo recebido alta do circuito de tratamentos regulares, a terapia de células-tronco representa a esperança de um milagre. “Trata-se de um grupo vulnerável”, nas palavras de Koene.

De acordo com o website da Xcell, foram levados a cabo 3000 tratamentos a partir de 2007 através de clínicas alemãs. Difícil precisar a porcentagem de pacientes holandeses, já que pouquíssimos são os enganados que se fazem ouvir.

“Muitas pessoas foram estafadas e se envergonham a tal ponto que se calam, e muitas outras se desiludiram, de maneira que sabemos o quão numeroso este grupo é. Mas se você vê a quantidade de anúncios, acaba concluindo que há mercado”, afirma Rob Koene.

Uma abordagem coletiva
Os consultórios no estrangeiro oferecendo a terapia são uma pedra no sapato das autoridades holandesas. Carecem de recursos jurídicos para intervir. Da mesma maneira, as diretrizes europeias para a utilização de células-tronco não se mostram viáveis por conta da alçada nacional dos países-membros nessa área.

O deputado do Parlamento Europeu Gerben Jan Gerbrandy já exerce há tempos pressão sobre a Comissão Europeia a fim de alcançar um plano de ação coletivo.

“Isso pode ser feito de diversas maneiras, como com a publicação de uma lista negra: a ideia é a de que, se um médico for suspenso em algum país europeu, não possa exercer a profissão nos demais”, explica Jan Gerbrandy.

Turismo de células-tronco
Agora que as práticas de Kleinbloesem caíram em descrédito, Gerbrandy espera chamar novamente a atenção para o assunto e induzir uma revisão da política alemã. Mas o “turismo de células-tronco” não é freado nas fronteiras europeias: o tratamento propriamente dito de pacientes que se apresentam em Colônia ou Düsseldorf se realiza em Istambul ou Baku.

“Pacientes sem alternativa às vezes se dispõem a pagar dez mil euros a fim de serem tratados em qualquer parte do mundo”, informa Gerbrandy. “O que acontece é que o paciente holandês tende menos a lançar mão da internet como recurso para ir tratar-se em algum país longínquo caso não haja envolvido nenhum médico holandês para respaldo”.

fonte: RÁDIO NEDERLAND

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