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Sistema imunológico "religado" estabiliza a esclerose múltipla

11/05/2011


Carlos Tavares

Médicos da USP de Ribeirão Preto conseguem "apagar"e "reiniciar" as defesas dos portadores da doença com autotransplantes de células-tronco.

Como ocorre em um computador após alguém pressionar o botão de reset, médicos brasileiros da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto conseguem desligar e religar — sem deixar memórias anteriores — o sistema imunológico de pacientes de esclerose múltipla e, com isso, aumentar a esperança de uma vida sem sintomas. O processo significa a estabilização da doença por meio da substituição do sistema imunológico com uso de células-tronco. É feito de forma semelhante à do transplante de medula óssea, mas com células do próprio paciente, selecionadas por meio de aférese (supressão da parte boa) e, então, congeladas (veja infografia), para depois serem devolvidas ao organismo por infusão.

As primeiras pesquisas no Brasil sobre o método começaram na década de 1990 — com animais em laboratórios e estratégias que buscavam recuperar pacientes de doenças autoimunes. O transplante — ou reprogramação — do sistema imunológico serve não apenas para pessoas portadoras de esclerose, mas também para pacientes de artrite reumática, diabetes tipo 1 e lúpus eritematoso sistêmico, entre outros. Somente nos últimos cinco anos é que a técnica conquistou um protocolo de confiança (conjunto de normas éticas, informações e práticas de segurança). No entanto, o trabalho das equipes dos hospitais das Clínicas da USP de Ribeirão Preto — comandada pelo médico imunologista Júlio Voltarelli — e do Albert Einstein — sob a responsabilidade do hematologista Nelson Hamerschlak — já se destacava. O primeiro transplante foi feito no Einstein, em 2001.

De acordo com Voltarelli, o transplante de sistema imunológico estabiliza 50% dos casos, dá mais de 20% de chances de melhora e deixa de 5% a 10% de casos em progressão. “Dez anos após as primeiras pesquisas, temos um índice quase zero de mortalidade”, comemora Hamerschlak, que fez o primeiro transplante. O procedimento deixou de ser pesquisa e passou a ser aceito pelos convênios e pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde o aval da Sociedade Brasileira de Hematologia, dado no fim do ano passado.

Júlio Voltarelli acredita que a reprogramação da imunidade dos pacientes funciona melhor em portadores de esclerose múltipla no início da doença, mas ele e sua equipe optaram por priorizar pacientes da forma progressiva da doença. “Desse modo, podemos dar a eles o benefício de interromper a progressão da doença”, observa.

Geralmente, o efeito do transplante é imediato em relação à estabilização, afirma o neurologista Amilton Antunes Barreira, professor titular de neurologia, psiquiatria e psicologia médica da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. “Quando há alguma melhora, que não é a finalidade do transplante e nem é esperada, ela ocorre ao longo dos seis primeiros meses. Sabemos que para mais de 60% dos pacientes a doença fica estabilizada”, comenta. Conforme o médico, se os sintomas voltarem, é possível fazer um segundo transplante com idênticos resultados.

Desafio e sintomas
A esclerose múltipla é uma doença neurológica crônica, de causa ainda desconhecida, com maior incidência em mulheres e pessoas brancas. Segundo o neurologista brasiliense Éber Castro, o mal atinge mais o continente europeu, onde há uma proporção de 100 pacientes por 100 mil habitantes. No Brasil, essa relação cai para 18 por 100 mil habitantes. A enfermidade leva à destruição das bainhas de mielina, que recobrem e isolam as fibras nervosas (estruturas do cérebro pertencentes ao sistema nervoso central). “O transplante evita a destruição da mielina, porque renova as células de defesa do organismo”, diz Éber, que acompanha, no Distrito Federal, pacientes transplantados em Ribeirão Preto.

Entre os sintomas mais frequentes, estão fraqueza muscular, rigidez, dores articulares e descoordenação motora. O doente perde o equilíbrio quando fica em pé, sente dificuldade para andar, tremores e formigamentos. Em alguns casos, a doença pode provocar insuficiência respiratória, incontinência ou retenção urinária e alterações visuais. Existe uma escala de 0 a 10 para classificar a gravidade da doença, segundo o médico. “Quando o paciente atinge o número 6, usa uma bengala; 6,5, duas; e 7, vira cadeirante”, explica Castro.

A economista paulistana Telma Monreal, 31 anos, estava quase atingindo o nível 6,5 quando fez o tratamento com a equipe de Voltarelli. Hoje, um ano e três meses depois, ela é uma das pacientes que se situam na faixa dos 20% das pessoas que obtiveram melhoras. Ela deixa a bengala no carro e anda sem problemas pelo prédio onde trabalha.

Há oito anos, ela começou a viver um cotidiano de tensão quando os sintomas apareceram. “Os médicos não levaram a sério, mas algo estava errado”, relata. Um dia ela percebeu, assustada, que perdera a visão de um dos olhos — sintoma clássico da esclerose múltipla. “Fui levada a um hospital e saí do surto após aplicações de corticoides. Recuperei a visão e comecei a me tratar”, relembra. Telma iniciou um tratamento doloroso, como a maioria dos pacientes de seu nível, com injeções diárias na barriga. Em setembro de 2009 ela procurou a equipe de Voltarelli. “Não sei onde estaria hoje se não tivesse feito o transplante. Renasci”, festeja.

Vida normal
A história da advogada mineira Luciene de Souza Castro, 38, é parecida. Ela fez o mesmo tratamento em Ribeirão Preto e lembra que descobriu o tratamento porque leu matéria assinada pelo repórter Rodrigo Craveiro, publicada no Correio em 6 de fevereiro de 2009. Com o título “Células-tronco revertem esclerose múltipla”, a reportagem descreve a experiência de um médico norte-americano, Richard Burt, que fez transplantes de sistemas imunológicos bem-sucedidos e trabalha em parceria com a USP.

“Na época, não havia mais nada a fazer”, diz Luciene, que fez o transplante três meses antes de Telma, em setembro de 2009. “Eu não sentia medo de nada. Tinha esperança, muita esperança.” Ela se comove quando se lembra da primeira conversa com Voltarelli por telefone. “Ele me tratou muito bem e imediatamente passei a fazer os exames”, lembra a advogada, que voltou a levar uma vida normal depois do transplante.

Sobre o rumo das pesquisas, Éber Castro acredita que um salto poderá ser dado em breve, quando os transplantes forem feitos com células-tronco embrionárias. “O problema é fazer com que as células embrionárias recuperem os tecidos e parem de crescer, porque senão formam tumores.” Enquanto isso, além do transplante de sistema imunológico, os pacientes ganharam dois reforços no combate à doença — as novas drogas Tysabri e Fingolimode. “Mas são medicamentos que exigem um acompanhamento médico rigoroso, devido aos efeitos colaterais”, adverte Castro.

Ataque interno
As doenças autoimunes ocorrem quando o sistema de defesa perde a capacidade de reconhecer o que é “original de fábrica”, na gíria médica, levando à produção desnecessária de anticorpos contra células, tecidos ou órgãos do próprio corpo. Exemplo: no diabetes tipo 1, ocorre uma produção inapropriada de anticorpos contra as células do pâncreas, que produzem insulina, levando à sua destruição e ao aparecimento do diabetes. No caso da esclerose múltipla, os linfócitos, que devem proteger o sistema nervoso, passam a atacá-lo.

fonte: CORREIO BRASILIENSE

 

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