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Remédio para esclerose múltipla ganha dose única diária

30/01/2012

São Paulo (SP) – O desenvolvimento de novos medicamentos para tratar doenças crônicas tem o objetivo, cada vez maior, de combinar praticidade e eficácia. Considerando o fato de o tratamento dessas enfermidades ser feito durante um longo tempo, muitas vezes a vida toda, dar opções mais confortáveis, com resultados mais relevantes, significa mais qualidade de vida para os pacientes. A chegada ao mercado brasileiro do primeiro medicamento oral para tratamento da esclerose múltipla é um exemplo desse cenário e abre caminho para outros remédios com esse mesmo perfil, em fases avançadas de estudos.

No mundo, cerca de 2,5 milhões de pessoas são afetados pela esclerose múltipla – sendo 30 mil no Brasil –, doença neurológica incapacitante mais comum entre adultos jovens com idade entre 20 e 40 anos. É mais frequente no sexo feminino, com uma proporção de três mulheres para cada homem. Antes do desenvolvimento do medicamento oral – que tem como princípio ativo a substância fingolimode e é administrado na forma de cápsulas de 0,5mg, em dose única diária –, as terapias eram realizadas com injeções periódicas, entre elas o interferon B-1a intramuscular. Além da questão da comodidade, a proposta do medicamento oral é proporcionar uma eficácia 52% superior na redução dos surtos em comparação ao interferon, o que retardaria a progressão da incapacidade neurológica.

O avanço, porém, tem um preço bastante salgado. O medicamento ainda será submetido à avaliação para ser disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como são atualmente os demais tratamentos para esclerose múltipla. Enquanto isso, será necessário desembolsar cerca de R$ 7 mil mensais. Valores à parte, a chegada do medicamento oral, indicado para o tratamento de primeira linha do tipo surto-remissão, é a estreia de uma nova classe chamada moduladores de receptores esfingosina-1-fosfato (S1PR), na qual há o aprisionamento seletivo dos linfócitos "doentes" nos gânglios linfáticos, conhecidos como ínguas, evitando que entrem no sistema nervoso central e destruam as células responsáveis pela transmissão dos impulsos elétricos para todo o corpo.

Trata-se, portanto, de um dos avanços relativos tanto ao tratamento quanto ao estudo da doença conquistados recentemente. De acordo com o neurologista Marco Aurélio Lana Peixoto, diretor-presidente do Centro de Investigação em Esclerose Múltipla da Universidade Federal de Minas Gerais (Ciem/UFMG), além dos medicamentos orais, há destaques também no universo dos injetáveis. “Temos experiências no Ciem com o natalizumabe, um injetável mensal que traz um outro grupo de anticorpos monoclonais e é indicado a pacientes que são intolerantes ou não respondem bem aos medicamentos de primeira linha. As respostas têm sido muito favoráveis em 14 meses de uso.” Por ser mensal, ele também diminui os incômodos característicos daqueles de administração diária. “Apesar de não serem medicamentos tóxicos, eles causam reações locais que podem levar à atrofia subcutânea, ou seja, depressões na pele.”

Em relação a novas pesquisas sobre a esclerose múltipla, o maior estudo genético já feito sobre a doença foi publicado na revista científica Nature e ajudou a lançar luz sobre uma curiosidade médica de longa data, mas com conhecimento relativamente recente. A pesquisa, realizada por um grupo internacional liderado por cientistas das universidades inglesas de Cambridge e de Oxford, confirmou que 23 regiões de genes, que já eram suspeitas, têm relação com a enfermidade. Outros 29 novos locais foram descobertos no levantamento, que envolveu 250 pesquisadores e 10 mil pacientes. “Esse estudo comprovou que há uma multiplicidade interessante de genes, que confirma a genética como um dos fatores importantes de causa da esclerose múltipla. Porém, a genética sozinha não explica tudo, ela tem que ser associada a outros fatores, como o ambiental”, explica Marco Aurélio.

Fernando Figueira, chefe do serviço de neurologia do Hospital São Francisco da Penitência, no Rio de Janeiro, e membro titular da Academia Brasileira de Neurologia, concorda. “Existe um jogo de fatores complexo que vai determinar a prevalência e a chance do indivíduo ter a doença. Há um componente genético, mas ele não é absoluto. Se fosse assim, o irmão gêmeo idêntico de um paciente também deveria ter a doença, mas o índice de compatibilidade é de 30%.”

Em relação ao meio ambiente, o lugar em que se vive tem grande importância. Um dos principais fatores é a exposição aos raios ultravioleta, especialmente nos primeiros anos de vida, que poderia criar uma espécie de proteção à doença. Outra hipótese é a da higiene, referente à exposição a bactérias e verminoses, o que explicaria o fato de países desenvolvidos ter maior incidência da doença. Outra descoberta recente refere-se ao vírus Eppstein bar, causador da mononucleose infecciosa. “Se a pessoa adquiri-la muito cedo na vida ou tiver uma manifestação muito agressiva, ela tem maior tendência à esclerose múltipla.”

Mesmo com avanços no entendimento e no tratamento da doença, há uma grande quantidade de enfermidades que ainda são frequentemente confundidas. “O médico deve descartar todas até chegar à esclerose e, ainda assim, fazer revisões periódicas desse diagnóstico”, afirma Fernando Figueira. Uma dessas doenças é a neuromielite óptica, bastante prevalente no Brasil e tratada erroneamente como esclerose múltipla. O principal problema é que os medicamentos usados para tratar a esclerose pioram a neuromielite, que tem testes específicos para ser diagnosticada e se difere da esclerose principalmente pelo tipo de lesão da espinha.

Memória - Santa Lidwina
A primeira descrição de um caso de esclerose múltipla possivelmente refere-se à Santa Lidwina de Schiedam, que viveu na Holanda nos séculos 14 e 15 (1380-1433). A doença da Santa Lidwina começou pouco depois de uma queda enquanto ela patinava, aos 16 anos. A partir desse episódio, Lidwina desenvolveu dificuldade a andar, cefaleias e dores violentas nos dentes. Três anos depois, suas pernas estavam paralisadas e surgiram problemas de visão. Durante os 34 anos seguintes, até sua morte, aos 53, sua condição piorou lentamente, apesar de ter apresentado períodos aparentes de remissão. Os sintomas da doença, descritos em vários textos, são consistentes com os da esclerose múltipla, bem como a idade de início dos sintomas, duração e evolução da doença.

 

Fonte: www.em.com.br

 

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