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Cartunista transforma sua doença degenerativa em quadrinhos

11/08/2015

“Em 2010 fui diagnosticado com esclerose múltipla, uma doença autoimunitária que ataca o sistema nervoso. Aqui contarei, em forma de quadrinhos autobiográficos, um pouco desta experiência.” É com essa descrição crua e direta que o cartunista Rafael Correa, 39 anos, deu à luz seu projeto Memórias de um Esclerosado , uma página na internet para transformar sua enfermidade em expressão artística.

“Antes de mais nada, sou um contador de histórias, comecei a desenhar para isso. Quando vi que tinha uma grande história nas mãos resolvi transformá-la em quadrinhos, que é a arte que eu domino. Se eu fosse um cineasta certamente faria um filme”, conta Rafael, sem autocomiseração.  “É uma ideia que vem amadurecendo desde o diagnóstico, mas como é um assunto delicado e às vezes dolorido, eu fui empurrando com a barriga”, relata. “A ideia inicial era fazer um livro, mas é tanta coisa para falar. Aí um amigo me deu a ideia de fazer uma web série, ir produzindo e publicando aos poucos, e isso tirou o peso das minhas costas. decidi que já era hora de mostras essa história para as pessoas.”

Gaúcho de Rosário do Sul radicado em Porto Alegre, Rafael começou a sentir os sintomas da esclerose múltipla em 2008. Sentia-se muito cansado após atividades físicas e caminhadas. O neurologista que ele consultou pediu alguns exames e constatou que ele não tinha nada de anormal. Vida que segue. Mas no final de 2009, Rafael já sentia dificuldades para exercer seu ofício, desenhar virara um esforço penoso. Ele procurou outro médico que, após uma ressonância magnética, diagnosticou a doença.

Humor e melancolia 
Rafael começou a desenhar aos dez anos e a esta altura já sabia que queria ser cartunista quando crescesse. Aos 14, publicou sua primeira tirinha em um jornal de Rosário e, aos 17, passou a exercer o ofício profissionalmente. “Hoje, só consigo desenhar por meia hora, depois disso minha mão cansa e preciso dar um tempo”, conta Rafael. “Só caminho com auxílio da Rita, minha bengala, e mesmo com ela não consigo ir muito longe por causa da fadiga”, relata, sem perder humor, que é a matéria-prima de seu trabalho. “Minha obra está marcada pelo humor. Sou uma pessoa bem humorada e isso herdei do meu pai, que é um cartunista que não desenha”, define. “Não vai ser diferente nesse novo projeto, embora eu alterne momentos de melancolia e tristeza.”

Rafael mantém seu trabalho como ilustrador e designer e desenvolve outros projetos autorais além do Memórias de um Esclerosado, que pretende reunir em livro. “Mas como vou fazer uma ou duas páginas por semana isso, vai demorar um pouco. Pelos meus cálculos, daqui a dois anos”, conta. Seus trabalhos anteriores já lhe renderam prêmios em diversos países, entre os quais Itália, Espanha, Turquia e Armênia.

Autorretrato 
Não é de hoje que Rafael usa a si próprio como personagem de suas histórias. “Já tinha feito algumas HQ curtas me colocando como personagem, isso não é nenhuma novidade, vários quadrinhistas fazem o mesmo”, explica. “mas tenho certeza que com o Memórias vai ser mais intenso.”

Ele define a experiência do Memórias de um Esclerosado como “uma jornada de autoconhecimento” e ao mesmo tempo uma aventura na mão de um contador de histórias com vontade de narrá-las. “É mais uma necessidade de colocar para fora sentimentos e até entender o que está acontecendo. Se isso vai ajudar as outras pessoas, ótimo, mas não é o que está me motivando nesse momento.”

Rafael garante que tratar de um tema tão sério com uma linguagem que é essencialmente ligada ao humor não é um problema. “É a maneira como escrevo, não sei fazer de outra maneira. Não tenho essa preocupação. A preocupação é de narrar uma história interessante para o leitor”, resume.

Curtidas e experiências compartilhadas 
O Memórias de um Esclerosado foi ao ar há uma semana. No segundo dia já havia ultrapassado as 2.000 curtidas no Facebook . O autor conta que estimava umas 200 a 300 curtidas. “Muita gente me procurou compartilhando experiências, gente me parabenizando por colocar em desenhos o que também sentem”, afirma. O desenhista se alegra ao citar um rapaz que o procurou. “Ele é desenhista e devido à esclerose múltipla ficou cego por um tempo. Agora recuperou a visão e está muito feliz e desenhando como nunca”, conta. “Fiquei feliz por ele”.

Rafael relata que a cada seis meses sente pioras provocadas pela doença. “Tipo, isso eu conseguia fazer o ano passado, aquilo era mais fácil etc.” Por enquanto, os tratamentos que tentou não surtiram efeito. “Atualmente estou tomando Colecalciferol (ou Vitamina D3). Tenho acompanhado pacientes que usam e tiveram ótimos benefícios, mas comigo ainda não”, diz o cartunista. “Estou em busca”, completa.

Fonte: Terra

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